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Melhores pais, melhores filhos, melhores professores, melhores alunos

Cristina Coronha

Melhores pais, melhores filhos, melhores professores, melhores alunos 
Educar pelo exemplo.
                        Por Cristina Coronha

“Era um dia comum e virou festa.
A gente põem nas coisas, as cores que têm por dentro”.

 Fernando Noronha

Sentei com aquela aluna, adolescente, para conversar, queria saber se havia refletido sobre as questões que sugeri a sua insipiente razão. Ela me confessara, dias atrás, que estava fumando por causa da sua mãe: “ela reclama do jeito com que me visto, das músicas que ouço; quando era jovem foi hippie, por que ela não me aceita do jeito que sou? Não tenho vontade de ir para casa. Temos discutido, brigado todo dia...”
Aquela adolescente sempre tão carinhosa e meiga estava diferente e precisava de ajuda, não mais que a sua mãe que há tempos não conseguia um momento de proximidade com sua filha, afetando, com isso, todo o ambiente familiar: sua irmã menor começou a apresentar problemas na escola e seu pai “parecia se fechar ainda mais”, segundo a adolescente.
Os pais têm uma responsabilidade moral, o dever natural de conduzir os processos dos filhos, a necessidade real de criar uma identificação entre si que os vincule e dê sentido à família, aprender a caminhar juntos, sabendo que neste percurso cada qual deve dar cem por cento de dedicação, ao invés de oferecer pouco mais de dez e esperar o restante do outro.
Em vários encontros informais dentro da escola procurei tocar a sua sensibilidade levando-a a olhar a realidade sob outro ângulo, colocando-se no lugar da mãe para entender suas razões e dificuldades,   pensar no que estava sentindo e a sentir o que estava dizendo, além de analisar as consequências das ações para sua vida.
Diante das vivências comprovei, mais uma vez, quão despreparados estão os docentes que educam na insegurança, que abala e é sentida.
Problemas com filhos, com alunos, todos temos!
Por que queremos filhos, por que queremos alunos?! Será que a resposta é clara e de cunho transcendente?!
A formação do caráter de um ser é um dos trabalhos de maior hierarquia que alguém pode empreender um grande exercício de capacitação docente:
Trabalhar sobre as causas! Começar a identificá-las em si mesmo, este é o primeiro passo. Atitude que gera tolerância compreensiva, freia impulsos e oportuniza o aparecimento do afeto. Queremos que o outro mude, que o outro compreenda, mas este é um labor que devemos começar dentro de nós mesmos.
                  Anos atrás, enquanto professora do ensino fundamental,percebi meus alunos muito agitados, indisciplinados e desatentos; após a análise da situação identifiquei a sala de aula refletindo o meu estado interno: naquele dia eu estava totalmente envolvida com questões  da minha vida particular    o que indicava que eu  é que estava  indisciplinada e  impaciente, eu é que precisava mudar de atitude e não meus alunos, o trabalho deveria começar por mim para depois, e só depois,   favorecer a modificação do ambiente externo.
Concentrar os melhores recursos em favor dos filhos, dos alunos, é o segundo passo; o que requer dos educadores observação, investigação, um verdadeiro estudo sobre as características psicológicas, muito amor, abnegação e tempo.
Alguns anos atrás observei um período em que meus filhos pareciam não se entender. Comecei a observar os movimentos diários para conhecer o porquê dessa dificuldade interpessoal que se apresentava e poder ajudar. Observei que minha filha, todas as tardes, ia para o quarto do irmão, deitava em sua cama de forma impositiva, provocava uma certa bagunça e agitação, atitude que ele desprezava e pedia sua retirada imediata, solicitação que nem sempre era atendida. Este simples gesto era suficiente para desarmonizar o ambiente e causar brigas e queixas. Minha intervenção era pontual, apenas freava impulsos maiores, mas não levava-os a troca de conduta.
Educar significa ter uma ilimitada paciência e tolerância, uma capacidade para penetrar nas mentes e dominar a ciência da espera (PECOCTHE, 1996). Foi o que fiz: procurei adentrar neste mundo interno dos meus filhos para entender que pensamentos estavam atuando e como poderia ajudá-los, sem pressa, mas vigilante, como se deixasse cozinhando todas as informações colhidas, com paciência, esperando o tempo de compreender para atuar. Cozinhar: trabalho habilidoso e dedicado que espera o ponto certo para desfrutar, com prazer, dos resultados.
A natureza é uma grande aliada, com suas sábias leis, faz com que tudo aconteça no seu respectivo tempo quando a ação é regada com paciência e tolerância. Paciência é a ciência do tempo, do saber esperar, que é a lógica alternativa de um processo que só depende de nós. Tolerância é o respeito e a consideração à condição e capacidade alheias.
Neste processo de pesquisa (cozimento) descobri que minha filha, na verdade, queria a companhia do irmão, que, em determinada hora do dia, sentia falta de uma companhia e não queria ficar sozinha. Ela só não sabia como dizer e como fazer este acercamento, o que gerava um a reação contrária.
Percebi que ela precisava da minha ajuda e que a minha intervenção deveria ser discreta, a modo de razoamento, que provocasse movimentos úteis, nunca destrutivos, favorecendo as boas ações. Sabia que minhas palavras tinham que estar imantadas pela força da consciência que tinha em relação a toda a realidade conhecida.
Aproveitei um momento a sós com meu filho, perguntei se ele sabia o porquê da atitude da irmã, mostrei, através de fatos, o quanto ela gostava de sua companhia e o quanto ele poderia ajudá-la. Falei sobre a realidade humana, com suas debilidades e necessidades e que o grande objetivo da convivência é o de achar os nossos fragmentos perdidos, que estão no outro e completar nossa imagem.
No dia seguinte, quando vi minha filha se aproximar do quarto do irmão,provocamos uma grande brincadeira onde todos nós fizemos parte. Depois saí deixando um convite de que um fizesse companhia ao outro já que precisava me ausentar. Enquanto arrumava minhas coisas para sair, fiquei atenta e feliz com o resultado encontrado.
Alguns dias depois sentei com minha filha. Ela precisava continuar o exercício de identificar, conhecer, para debilitar deficiências e fortalecer valores internos de forma mais consciente, segura e autônoma. Ela sabia que eu estava pronta para caminhar lado a lado neste processo de aprender e ensinar, já que venho fazendo este mesmo ensaio comigo mesma.
A vida é colorida e é uma grande festa, está repleta de tons, sons, aromas, texturas. A cor do mundo está dentro de cada um de nós. Aquele que somente percebe o preto e o branco é porque só têm essas cores em seus olhos.
Educador de verdade é como Sócrates, parteja almas: cria condições para que cada semente de homem dê luz e colorido ao melhor que tem.
Todo dia pode ser comum, mas também pode ser festa. Os dias podem ser de festa se há a esperança da possibilidade colorindo o processo.
Educador de verdade é mágico fazedor de um ambiente adequado para o desenvolvimento.
Educador de verdade ensina com as cores e a festa que tem por dentro. Se carece de alegria, de vontade, de certezas, de entusiasmo, de verdades, precisa começar a criá-las para poder ensinar. Necessita construir um conceito claro a respeito do seu papel social, político, pedagógico, moral, ético e cidadão para conduzir com firmeza seu labor. Quando isso não ocorre, só lhe resta “pegar emprestado” algumas ideias para poder sobreviver, apropriando-se de algo que não foi nascido do próprio ventre e, portanto, sem colorido.
Certa vez perguntei a uma mãe o que achava sobre o piercing da filha, e ela respondeu que “não sabia”, que não tinha uma opinião formada, mas que não deveria ter nada de mais porque “todo mundo usa”.
Uma professora confidenciou em uma reunião pedagógica que todos os dias assistia o programa da TV Globo Malhação porque queria aprender a forma correta de orientar seus filhos e alunos em relação aos dilemas e conflitos próprios da faixa etária.
Esses dois casos evidenciam a ausência de conceitos e o “empréstimo” realizado como única saída para poder atuar no seu micromundo. Os conceitos regem a conduta. Se não os tenho, o que/quem regerá minha vida? A teoria, segundo Alícia Fernandez (2001) é a teia para o equilibrista.
Viver com conceitos “emprestados” faz com que não haja sustentação daquilo que se sabe, que fala e que faz, criando uma falsa crença de si mesma e um movimento desorientado de ir de  um ponto ao outro  dependendo da “mão” alheia.
Arquimedes em sua célebre frase – “Deem-me uma alavanca e um ponto de apoio e eu moverei o mundo” - sabia que o ponto de apoio não era utopia: levantar o mundo, na verdade significava a humanidade. O ponto de apoio de referencia ,era a razão suprema capaz de mover a razão comum e transcender  do estado de semibárbaros para o humano,  fazer com que o homem tivesse essa convicção e levantasse o espírito dele e da humanidade com a formidável alavanca: a sua vontade. Arquimedes sentia que era preciso chegar à segurança, à estabilidade dos conceitos. A história conta que o homem tem clamado/buscado o ponto de apoio que o sustente nos transes difíceis.
A natureza é a primeira mestra do ser humano. A observação atenta de seus processos ensina o homem a conduzir a vida. Observação, exercício da reflexão enquanto o entendimento tenta apalpar o que vê.
A aranha tece sua teia com fios produzidos pelo próprio corpo; cada fio é fundamental para gerar unidade que sustenta, protege, ampara e dá estabilidade. Educador de verdade é aquele que vai fiando sua teia produzindo fio por fio com os elementos que recolhe daquilo que lê, ouve, analisa, pensa, criando juízos, deduções, formando traçados de certeza, estabilidade e formando a sua práxis pedagógica e humanista.
Recordo certa vez notar em um de meus alunos uma atitude de desdenho e egoísmo em relação aos crimes humanos, além de uma resistência e comentários críticos em relação a tudo e a todos. Escreveu ele, mais de uma vez, que não se importava com o que estava acontecendo no mundo em relação à destruição, aos testes nucleares, desde que não afetasse a sua vida. Sua atitude indiferente causou – me espanto, levando-me a convidá-lo, em diferentes momentos, a refletir e a buscar dentro de si a sua parte divina e generosa que sabia possuir.
Criamos, assim, muitos momentos, sensíveis, de valorização real de sua pessoa, de conversas e trocas. Observei, ao longo do ano, manifestações de respeito em relação aos colegas, um comportamento mais compreensivo e humilde, um semblante mais sereno, muitos abraços e no final do ano as suas palavras: “obrigada por se preocupar comigo”.
A natureza tem ensinado que em tudo deve haver equilíbrio, que nossas ações precisam estar sustentadas por conceitos, pelo sentimento, algo de maior valor, que inspire e impulsione.
Cabe aos professores dar colorido ao mundo preto e branco que tem sido criado ao redor dos alunos, estabelecer uma vinculação de confiança e de compreensão que nasce da coincidência entre as palavras, atos, pensamentos e no ambiente de verdadeiro amor e interesse, de afeto e respeito, já que o afeto suaviza o respeito e o respeito eleva o afeto (PECOTCHE, 1996).
Estávamos em sala conversando sobre os acontecimentos mundiais, quando um aluno pediu a palavra e posicionou-se criticamente em relação à reportagem lida. Os demais colegas olharam-no com um espanto de admiração pela colocação inteligente, oportuna e reflexiva. Ouvi alguém perguntar: “de onde ele veio?” Logo depois, vi a força deste bom exemplo pairar sobre o ar quando outros colegas pediram, também, a palavra e se preocuparam em usar uma linguagem oral mais correta, falar com propriedade e coerência, mostrando as mesmas condições intelectivas.
Sou otimista em relação à educação, em relação ao adolescente. Ele está em pleno apogeu de sua capacidade de raciocínio dedutivo, o mais alto nível de pensamento abstrato, mobilidade e interação social, levando-o a desabrochar em diferentes interesses, habilidades, ciências e humanidades. Só precisa ser reconhecido, estimulado, convidado.
As aulas de filosofia, sociologia e atualidades para adolescentes aparentemente não têm o menor valor significativo para suas vidas e para o vestibular, mas hierarquizo esse momento, cuidando de um planejamento conectado à vida, convido à investigação das causas, à capacitação para leitura ativa e ampliação do mundo pessoal e relacional, num exercício de interrelação consequente. Tento atrai-los com dinâmicas, muita atividade, para o que é belo, possível, real.
A resposta ao meu esforço se traduz na preocupação, por parte deles, com um comportamento ético, sensível às questões levantadas, rico em troca e aprendizagem.
A sala de aula que desfruto todos os dias é resultado de um constante trabalho de respeito e encantamento pelos “meus adolescentes”, de prazer em dividir o pouco que tenho e receber tanto. É o espaço para alegria, é a certeza de contar - porque provoco - com o melhor de cada um.
Para chegar a ter um mundo de paz é preciso começar a mudar a cultura, torná-la uma cultura de paz, deixar de destacar o erro, de provocar diferenças, de viver olhando para o outro e gerar violência.
Provocar o bom que cada um pode realizar, valoriza os feitos por pequenos que sejam, estimular aos bons hábitos, às nobres iniciativas, dedicar atenção ao que é certo e conveniente, ao que tem verdadeiramente valor, destacar as ações generosas, amigas, compartilhadas.    
Pais e professores amam seus filhoslunos e têm os melhores anelos de ajudar e favorecer o seu processo feliz de crescimento, mas esses dois fatores são suficientes para educar?
Recentemente ouvir um aluno adolescente manifestar que não queria mais morar com sua mãe por causa de suas atitudes e “porque ela mente muito e não quer que eu minta”.

“Não se pode ensinar se ao fazê-lo não vai refletida, como garantia do saber, o próprio exemplo. (PECOTCHE, 1996)”.

Educar pelo exemplo é fazer com que as palavras coincidam com os atos.
Quando o professor fala algo e age diferentemente do que disse, o que está comunicando? Que apesar das palavras pronunciadas serem muito bonitas, elas são irrealizáveis, não são possíveis ou não tem valor, afinal, se “o próprio professor não consegue ou não faz, eu também não conseguirei”, repercutindo no interno como desestímulo. Ao passo que quando as palavras são da mesma natureza que as ações, surge a possibilidade de realização porque elas têm vida, servindo de estímulo positivo e de ensinamento.
Educação pelo exemplo é aquela onde o foco não é o outro, o foco é o par educativo que se forma, convidando a uma construção parceira; sugere a mudança de um antigo e costumeiro hábito da nossa cultura, de achar que são os demais os que têm que mudar o seu modo de ser. O educador observa as características, debilidades, necessidades de correção e encaminhamento do discente e ao mesmo tempo reflete sobre suas condições docentes, traça um plano paralelo para a sua capacitação.

 Queremos filhos melhores, alunos melhores, uma humanidade melhor, mas o que temos feito para melhorar os pais ,os professores e o ser humano que somos?

Referências bibliográficas:
FERNÁNDEZ, A. Os idiomas do aprendente. Porto Alegre: Artmed Editora, 2001.
PECOTCHE, C. Introdução ao conhecimento Logosófico. São Paulo: Editora Logosófica, 1996.
 

 
 
 


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